
Eu piso. Piso muito. Piso com muita vontade. Sem querer. Juro para mim mesma que não é de propósito. Me esforço. Muito. Procuro no fundo das minhas lembranças. Não acho nada. Lá, tudo é muito escuro. Do nada surge uma luzinha. Minha infância. E que infância incrivel. Tive todos os momentos que qualquer criança deve ter. Me diverti a beça. Era feliz e mal sabia eu. Meus pais foram muito prestativos. Me deram do bom e do melhor. Sem me gabar. É preciso reconhecer. Sou o que sou por causa deles, mas mais por minha causa. Desculpa a modéstia. Podia ter seguido caminhos distintos, cruéis, dificeis, fui pelo mais óbvio, o mais sensato, o que mais combinava comigo. Sem saber, claro. Reconheço. Logo depois me vem a minha primeira paixãozete. Nada muito relevante. Na epóca sem dúvida. Doeu. Era uma indecisão maluca. Um dia “sim” no outro “não quero mais”. Lembro-me exatamente o problema. Prefiro nem entrar em detalhes. Essa conversa minha comigo mesma, não sei aonde quero chegar.Preciso chegar em algum lugar. Caminho mais um pouco dentro das lembranças. Um corredor sem fim. Um bilhao de portas. Entro naquela chamativa. Parece que diz “vem aqui me visitar”. Me lembro do primeiro namorado. Nossa, como amei. Sofri.amei.sofri. Perdoei. Desse a lição com certeza foi perdão. Pisaram bonito em mim. Aprendi a me valorizar. Na verdade ainda não muito. Aprendi que para tudo há superação, tempo e aprendizado que se pode retirar das mais profundas e obscuras experiencias. Hoje não sinto saudade, nem falta, nem gosto de me lembrar. Não porque existe mágoas mas porque não compensa e não acrescenta, é uma lembrança parada. Monótona. Fecho a porta. Ando mais um pouco. Procuro. Procuro. Sei que existe uma certa e não consigo encontra-la. Ela está ali. Simplesmente brilhando. Se desse, piscando como um flerte. Entro? Não entro? Dúvida cruel. A escolha é minha, só minha. Penso nos prós e contras. Eles são misturados. Não existe prós e contras. Existe o sim, o agora, e o não, depois. Prefiro respirar. Sentir o que quero. Preciso disso? Sei que vai doer, sei que vai machucar, tirar casquinha de ferida quase cicatrizada nunca é uma boa, mas as vezes é preciso para ela fechar de vez. Na verdade, na hora não tem o certo e o errado, é aquilo e pronto. Entrei. Frio. Um vento forte no canto do meu ouvido esquerdo. Meus cabelos estao literalmente bagunçados. Olho no fundo. Vejo uma menina encolhida no chão. Quieta. Ouvindo o som da própria respiração. Profunda. Cautelosa. Sou eu? Sim, sou eu. Me vejo lá, quieta e pensativa. Em um dos momentos de sofrimento, de profunda dor e dúvida. Viro de costas. Decido não enxergar aquilo. É pesado demais. Muito frio. Molhado. Saio. Fecho a porta, na verdade eu soco a porta antes de fechá-la. Confirmo que ela está fechada. Ando mais um pouco. Acho uma porta de lembranças doces, felizes. Só de tocar na maçaneta sinto uma sensação boa. Lembro dos nossos momentos. Começa aparece nos telões da sala uma “brisa” nossa. Um jantar especial. Um presente lindo que te dei, uma camiseta de um pássaro, será que você ainda a usa? Aparece nossa viagem, lua-de-mel total. Cada momento bem vivido, inteso, de dar inveja a qualquer um. Queria voltar no tempo. É bom poder entrar nessas portas de vez em quando e sentir que estou lá de novo. Momentos bons devem ser revividos. Trazem a sensação de missão cumprida, de que a vida faz sentido, que estou vivendo da maneira mais certa. Fecho, saio, caminho. A sensação de que posso reviver tudo o que eu quero, mesmo que nos pensamentos é impagável. Não achei AQUELA porta especifica que eu queria, acho que não era o dia. As lembranças são aleatórias, infelizmente ou felizmente, elas vão e vem. Te pega desprevenido. Fazer o que né? Volto para a realidade. Penso que preciso preencher mais portas, ter mais lembranças boas, viver mais. Intensidade. Viver, viver e viver!

